Caderno

Quando saber já não basta

Ensaio · Inteligência artificial e relações de cuidado

Quando as respostas se tornam abundantes, o que passa a ser raro? Uma reflexão sobre conhecimento, presença e o valor do encontro humano.

Desenho em grafite e aquarela de uma cadeira vazia junto à janela, iluminada pelo sol.
Dr. Thiago GontijoLeitura: 10 min

Durante muito tempo, o conhecimento foi uma espécie de patrimônio. Levava anos para ser adquirido, exigia esforço para ser conservado e permanecia concentrado nas mãos de relativamente poucos. Quem sabia tinha algo de que os outros precisavam.

Na medicina, essa relação ajudou a moldar nossa ideia de valor. Admirávamos o profissional que guardava uma biblioteca dentro de si, que reconhecia o nome raro, recuperava de memória uma associação improvável e encontrava uma resposta quando todos ainda procuravam a pergunta. O saber abria portas, construía reputações, organizava hierarquias. Havia uma lógica compreensível nisso: era difícil chegar até ali.

Fomos formados sob essa promessa. Estudar mais, aprender mais, saber mais. Cada conquista parecia acrescentar alguma segurança ao lugar que ocuparíamos no mundo. A autoridade se apoiava, em parte, na distância entre o que nós conhecíamos e aquilo a que os outros tinham acesso.

Agora, essa distância começa a mudar.

A inteligência artificial nos coloca diante da possibilidade de obter, em poucos instantes, informações e sínteses que antes exigiam uma longa procura. Aquilo que ficava disperso em livros, artigos e diferentes campos do conhecimento passa a caber numa conversa. Perguntar se torna mais fácil. Receber uma resposta também.

É uma transformação que me entusiasma. E que me faz pensar no que acontece com as pessoas quando aquilo em que apoiaram seu valor deixa de ser raro.

Podemos olhar para isso pela lógica mais simples do mercado. O que poucos possuem e muitos desejam tende a ser valorizado. Quando a oferta aumenta, a exclusividade diminui. Algo que antes distinguia seu portador passa, aos poucos, a fazer parte do que se espera encontrar.

Essa lógica é insuficiente para explicar uma vida, mas ajuda a compreender o desconforto de uma profissão.

Se boa parte do nosso reconhecimento veio de possuir respostas difíceis de alcançar, o que acontece quando essas respostas passam a circular com facilidade? O que acontece com a identidade de quem dedicou anos a reunir aquilo que agora parece estar disponível a qualquer pessoa?

Há uma perda possível nessa mudança, e seria desonesto tratá-la com leveza. O esforço continua tendo sido real. As noites de estudo não se tornam menores. O caminho percorrido permanece parte de quem somos. Ainda assim, o mundo não se comprometeu a conservar para sempre o valor de troca das nossas conquistas.

Talvez essa seja uma das experiências mais difíceis de amadurecer: perceber que algo pode continuar sendo precioso na nossa história e já não nos distinguir da mesma maneira diante dos outros.

O conhecimento permanece necessário. Uma medicina despreparada continua sendo perigosa, por mais acolhedora que pareça. Mas ter acesso à informação, compreendê-la e saber o que fazer com ela são experiências diferentes. A facilidade de uma resposta pode esconder o trabalho que ainda falta.

O conhecimento que chega depressa pode chegar sem maturidade. Sem a percepção dos próprios limites. Sem a capacidade de distinguir o que é relevante naquele caso, o que precisa ser conferido ou o que, embora correto em termos gerais, pouco ajuda aquela pessoa.

É possível ter diante de si uma resposta convincente e não perceber a pergunta que ficou de fora.

A abundância traz esse paradoxo. Podemos estar cercados de explicações e continuar sem saber a quem confiar nossa dúvida. Podemos ter acesso a uma quantidade imensa de informação e nos sentir profundamente sozinhos no momento de decidir.

É aí que começo a enxergar um deslocamento de valor.

Quando uma capacidade se torna abundante, nossa atenção se volta para aquilo que continua difícil de encontrar. Se as respostas estão por toda parte, talvez passe a valer ainda mais a presença de alguém capaz de examiná-las conosco, reconhecer suas limitações e compreender o lugar que terão na nossa vida.

Penso especialmente na relação entre o médico e a pessoa que o procura.

Quem chega a uma consulta traz mais do que uma questão a ser resolvida. Traz uma vida que terá de continuar depois da resposta. Aquela recomendação encontrará uma rotina, compromissos, medos antigos e possibilidades concretas. Encontrará também desejos que talvez pareçam pequenos para quem olha de fora e sejam imensos para quem os carrega.

Voltar a caminhar até a padaria. Conseguir cuidar de alguém. Dormir sem antecipar o dia seguinte com apreensão. Manter alguma independência.

Nada disso aparece por inteiro no nome de um diagnóstico.

Para perceber o que importa, o médico precisa dar à pessoa a oportunidade de dizer. E precisa tolerar que a conversa tome uma direção que ele não havia previsto. Às vezes, a informação decisiva surge depois de uma pausa, quando parecia que tudo já tinha sido explicado.

Presença exige essa disponibilidade para ser surpreendido pelo outro.

Ela também exige maturidade para compreender que duas pessoas bem informadas podem desejar caminhos diferentes. Que a nossa convicção técnica precisa conversar com a liberdade de quem viverá as consequências. Que explicar de novo pode fazer parte do trabalho, assim como reconhecer uma incerteza e continuar ao lado dela.

Isso custa atenção. E atenção é uma parte da nossa vida que entregamos a alguém.

Talvez por isso seja tão difícil encontrá-la inteira.

Estar no mesmo lugar é relativamente simples. Permanecer atento, sem transformar a fala do outro numa espera pela nossa vez de responder, é mais exigente. A pressa nos acompanha mesmo quando estamos sentados. Podemos olhar para uma pessoa enquanto já pensamos na próxima tarefa.

Quando alguém percebe que, por alguns instantes, não está disputando espaço com todo o restante do mundo, alguma coisa muda na relação.

Não há novidade absoluta nisso.

Ilustração em grafite de uma mão envelhecida segurando outra mão, sobre tecido claro, sem mostrar rostos.
O gesto de permanecer.

Penso na sabedoria dos mais velhos, na importância que nossos avós atribuíam a uma visita, a uma conversa sem hora marcada para acabar, à pessoa que vinha saber como as coisas estavam e esperava pela resposta. Havia nesse modo de compreender os vínculos um conhecimento difícil de transformar em título, mas fácil de reconhecer quando fazia falta.

Dar tempo a alguém era uma forma de dizer quanto aquela pessoa valia.

Talvez tenhamos ouvido isso muitas vezes sem compreender inteiramente. É o destino de certos conselhos antigos: parecem simples demais enquanto ainda acreditamos que as grandes respostas precisam ser complicadas.

Seguimos adiante. Aprendemos coisas extraordinárias, criamos recursos que outras gerações sequer poderiam imaginar e nos tornamos capazes de intervir de maneiras cada vez mais sofisticadas. Em algum ponto desse percurso, parte da medicina passou a tratar a relação como se ela pudesse ser acrescentada ao final, depois de concluído o trabalho importante.

A escuta ficou comprimida entre perguntas. O silêncio começou a parecer improdutivo. O tempo de compreender a pessoa passou a disputar espaço com o tempo de cumprir tudo o que havia para fazer.

Há razões concretas para isso, e elas merecem ser enfrentadas. Mas também existe uma ideia de prestígio que ajudamos a construir. Premiar o domínio técnico é mais simples do que reconhecer a qualidade de uma presença. O conhecimento pode ser examinado. A atenção que oferecemos a alguém se revela de maneira menos visível, muitas vezes longe de qualquer testemunha.

Talvez tenhamos aprendido a demonstrar competência com mais facilidade do que aprendemos a acompanhar uma pessoa.

E agora uma tecnologia tão nova parece nos devolver a uma sabedoria tão antiga.

Quanto mais respostas conseguirmos produzir, mais poderemos perceber o valor de alguém que escuta com critério. Quanto mais fácil se tornar reunir informações, mais importante poderá ser encontrar quem nos ajude a compreender o que elas significam, sem nos deixar sozinhos com o peso da escolha.

Não imagino que essa valorização acontecerá automaticamente.

A escassez da presença não garante que saibamos reconhecê-la, muito menos que estejamos dispostos a cultivá-la. Podemos usar a tecnologia para preencher cada intervalo com mais tarefas. Podemos tornar tudo mais rápido e descobrir, ao final, que a pressa apenas ganhou novos instrumentos.

O tempo que conseguirmos recuperar terá de ser destinado a alguma coisa. Essa escolha dirá muito sobre o que realmente valorizamos.

Também seria fácil demais responder à mudança dizendo que o nosso diferencial será a empatia. A palavra, sozinha, não resolve nada. Pode se tornar mais um atributo anunciado, mais uma maneira de disputar reconhecimento sem alterar a experiência de quem nos procura.

A presença de que falo precisa ser percebida pelo outro.

Ela aparece quando uma dúvida encontra espaço, quando uma discordância pode ser dita sem constrangimento, quando o profissional reconhece o que não sabe e assume o trabalho de investigar. Aparece na coerência entre a atenção oferecida no encontro e a responsabilidade pelo que foi orientado.

Ser humano não nos torna automaticamente capazes disso. Precisamos aprender, exercitar e, em certos momentos, admitir o quanto nos afastamos.

Talvez o deslocamento mais interessante esteja justamente aí. A autoridade fundada na posse do conhecimento pode dar mais espaço a uma confiança construída na maneira como usamos esse conhecimento com alguém.

Continuaremos precisando saber. Teremos também de mostrar que conseguimos discernir, compreender o contexto e responder pelas decisões de que participamos. A informação encontrará seu valor no cuidado que conseguirmos construir a partir dela.

É essa possibilidade que me interessa.

Uma medicina em que o acesso ampliado ao saber nos libere um pouco da necessidade de demonstrar o quanto sabemos. Em que possamos dedicar mais energia a perceber quem está diante de nós. Em que a competência técnica dê sustentação a um encontro no qual a pessoa consiga reconhecer seus próprios valores e participar do caminho que será escolhido.

Talvez nossos avós estranhassem a quantidade de tecnologia de que precisamos para voltar a essa conversa.

Talvez apenas puxassem uma cadeira.

Há algo nessa imagem que merece permanecer conosco: alguém que se acomoda, dá tempo, escuta. Alguém cuja presença permite que a conversa encontre seu próprio ritmo e que uma preocupação, até então guardada, finalmente seja dita.

Durante muito tempo, procuramos valor naquilo que conseguíamos acumular. Livros, respostas, títulos, certezas. Agora que parte desse saber se torna mais acessível, talvez possamos compreender melhor o valor daquilo que só existe quando é oferecido.

A atenção precisa ser dada. A confiança precisa ser construída. O cuidado precisa acontecer entre pessoas.

E talvez, diante de tantas respostas disponíveis, volte a ser preciosa uma pergunta antiga, feita por alguém disposto a esperar:

Como você está?

Por Dr. Thiago Gontijo.

Continue a leitura

Conteúdos relacionados

Outros textos publicados que ampliam esta conversa.

← Voltar ao CadernoSobre Thiago Gontijo